
Em pleno exercício mental disciplinado pelo Xadrez entrei na utópica reflexão, enquanto contemplava as peças de madeira perante o meu olhar, afinal a vida é mesmo um jogo.
O senso comum diria que o Xadrez é um jogo de tabuleiro constituído por trinta e duas figuras materiais, metade delas brancas sendo as restantes cor negra, cujo objectivo é ‘derrotar’ o oponente deixando sem alternativas e peças, e prestes a ser exterminado. Para tal, fazendo uso de um poder de concentração e astúcia superior ao opositor.
Sabem, tenho outra teoria. Depois de várias parcelas temporais dedicados ao cognitivismo, formulei a hipotética tese que o Xadrez não é mais que um mero reflexo da efeméride da vitalidade de um indivíduo que decidiu eternizar a sua passagem pela Terra num mero mapa branco e negro.
Passo a explicitar os argumentos que apoiam esta minha radical inserção do Xadrez no quotidiano humano.
Tomando as regras que regem este jogo, facilmente deparamo-nos com dezasseis peças coloridas de branco e dezasseis peças tingidas de preto, tendo cada cor oito peões, dois cavalos, dois bispos, duas torres, um rei e uma rainha.
Numa tentativa surreal de entrar no íntimo do ser criador do Xadrez, diria que este pretendeu dividir o Mundo terrestre em ‘bons’ e ‘maus’ expressos cada um deles pela cor angelical e pela cor da ausência, respectivamente.
Atentando na posição das figuras tridimensionais, o que me chamou atenção foram os oito peões de cada cor estarem na linha da frente. Ora, aqui encontrei uma crítica social à natureza humano, o mais ineficiente e deficitário das criaturas terrestres é sempre o primeiro a ser atingido pela sagacidade adversária.
Quanto a esses mesmo peões diria que são meros instrumentos da criatividade dos deuses, ou seja, o Homem não é mais que um simples peão da vontade divina em procura de derrubar o adversário.
Será que o fecundante do Xadrez era um mero peão na superfície terráquea, e ele próprio terá sido uma vítima da vaidade divina?
Não pude deixar de analisar as restantes peças, entre elas um cavalo. Teorizado por mim, tentando o jogo miraculoso da ‘bola de cristal’, será símbolo da perdição divina, da limitação da capacidade humana, da infinita procura de atingir os fins sem olhar a meios, tal facto comprovado pelo movimento uniforme em ‘L’ da figura equestre que evidencia o ‘atropelar’ das restantes figuras.
Terá o fecundante do Xadrez sido ele próprio um cavalo, e sentir-se-á ele culpado por ter atrocidado inúmeras personagens?
Bem, o capítulo ainda não encerra. Seria incoerente não mencionar as restantes maquetes carregadas de simbolismo que o criador do Xadrez, (in)conscientemente, demarcou no seu jogo.
Outra figura curiosa é uma torre. No meio de uma multidão de animais racionais estão 4 estruturas supostamente de pedra. Ora, mais uma vez esta peça tem uma conotação passional facilmente visível, senão vejamos: num mundo tão racional, ele mesmo expresso pelas figuras animalescas, a torre simboliza a objectividade, a verticalidade dos objectivos e sua respectiva concretização, rodeado do fragmento humano coração, eis que surge um novo fragmento, curiosamente num objecto irracional, a razão.
Seria desejo do fecundante do Xadrez algum dia vir a ser uma Torre?
Voltando aos animais, surge-nos a figura altiva e esguiça do bispo. Esta figura discreta revela-se muito matreira. É um artefacto que salta pouco à vista dos Deuses, no entanto, é de uma utilidade avassaladora. Revendo-me no gerador deste jogo de tabuleiro, penso que ele tenha encontrado no bispo um refúgio para as suas perdas durante o Jogo da Vida tanto fluxos perénicos humanos como materiais.
Terá o fecundante do Xadrez padecido de falta de misericórdia divina?
Faltam-nos as duas figuras mais emblemáticas, o rei e a rainha. Associando os diversos factos diria que o rei não passa de um mero objecto bacoco, deveras limitado nos movimentos, ocioso e de poderes pouco esclarecidos a quem nem sempre pode ser protegido pelos ‘escravos da Vida’ criado com o objectivo de criticar a limitação cognitiva dos Deuses.
Em contraste, surge-nos a rainha. Uma peça muito importante no exercício mental da resolução de problemas durante o jogo. A ela é permitido todos os movimentos, não tem restrições. Inteligentemente o autor do Xadrez pretendia criticar o facto de nem sempre o mais forte ser o mais poderoso, o facto de a Mulher ser capaz de ‘lutar’ contra as incongruências da vida sem necessidade de recorrer ao Homem. Analogamente, esta crítica esbate o provérbio de que nem sempre ‘por detrás de uma grande mulher está um grande homem’.
Quereria o fecundante do Xadrez criticar os casais divinos?
Jamais saberemos a posição em que o Concílio dos Deuses colocou o nosso admirável fundador da Era Xadrezista, no entanto, não podemos deixar de constatar que a sua clarividência e notável sentído crítico valerá-nos, ainda hoje, uma lição social e moral deveras marcante.
É-nos possível através de uma análise profunda retirar deste pequeno tabuleiro rectangular inúmeras conclusões contundentes: nem sempre o lado benigno se sobrepõe ao maligno, nem o maligno será um derrotado durante toda a sua existência. Muitas vezes, a Vida põe-nos em Xeque, tornando-se necessário arranjar soluções para todo o tipo de obstáculos que encontramos e, assim, conseguimos escrever aquelas histórias românticas de alguém que mudou o rumo da sua existência quando já se pensava que não havia nada a fazer, histórias essas que todos os dias orgulham a espécie humana. No entanto, a mais inegável e fidedigna moralidade que o Xadrez nos dá é que a história volta sempre a repetir-se independentemente do seu desfecho.
Concluíu com mais uma evidência da clara transposição da experiência existencial na Terra para o tabuleiro. No Xadrez, tal como na Vida, tomamos várias opções, cada uma delas conduzindo-nos a um único destino, a uma individualidade do acontecimento, a uma especificidade do acto VIVER.
A vida é um Xadrez, que nos faz um Xeque diariamente e nos transcende com um Xeque-Mate.. ou não, e a Eternidade?
PS: Perdoem-me o estilo demasiado Saramaguista, mas foi a melhor homenagem que consegui através das letras fazer a esse mentor da mudança social, a quem a vida lhe fez Xeque.. Mate?
