quarta-feira, 24 de março de 2010

É isto a liberdade?


No dia 24 de Abril pelas 22:55h passa na rádio a música ‘E Depois do Adeus’. Poucas horas depois, quando o relógio marcava 00:20h, passa a música ‘Grândola Vila Morena’ de Zeca Afonso. Estava abrasado o rastilho que iria culminar na Revolução dos Cravos.


No dia 25 de Abril de 1974, o povo saiu à rua. Veio festejar a Liberdade. Foram várias décadas a escutar as vozes do regime; várias décadas a ler as frases do regime; várias décadas a viver aventura do regime. O povo sofreu, chorou e ocultou tudo aquilo que teve de suportar durante décadas desde o fatídico 28 de Maio de 1926. Estado Novo foi assim designado este período da História de Portugal.


Estado Novo trouxe-nos a propaganda ao Salazarismo e ao regime, trouxe-nos a PIDE para nos controlar, trouxe-nos a Guerra com as colónias e territórios na ìndia, trouxe-nos a Ditadura. Mas mais eficaz do que qualquer cartaz de propaganda, mais incisivo do que qualquer agente da PIDE, mais poderoso do que qualquer guerra ou mesmo ditadura, o Estado Novo deu ao povo o clique necessário. Foi o clique que despertou dentro de cada português, desde a criança ao idoso, ou do mendigo ao médico o anseio de Liberdade. Temos dentro de cada um de nós o poder de escolher, o poder de duvidar, o poder de expressar. Tudo isto é intrínseco ao ser humano. Não existe maior sensação do que sentir que somos livres, mas analogamente, não existe maior flagelo que silenciar a voz, a mente e a razão.


Comandada por honrados homens como Salgueiro Maia, apoiada por bravos políticos como Álvaro Cunhal ou Mário Soares, a revolta militar de 25 de Abril concretizou-se. Mais do que uma vitória dos militares foi uma vitória do povo. Guardaram os seus pensamentos, as suas opiniões, os seus manuscritos para publicarem tudo num único dia. Foram anos e anos a esperar por este dia. Um país maioritariamente rural, conservador cujo seu lema por muito tempo resumiu-se ao mito do ‘orgulhosamente sós’, renasceu.


Quase a completar 35 anos, que conclusões podemos tirar do Pós 25 de Abril? Entramos na União Europeia, realizamos a Expo 98 e o Euro 2004, mas em que quadro nos inserimos actualmente? O sistema capitalista faliu, estão a nascer os ‘novos pobres’ em Portugal. São mais de 2 milhões de pessoas que todos os dias lutam para sobreviver. Cada dia é uma batalha ganha, onde a guerra só acabará no dia em que expirarem e viajarem para a sua última morada.


Não basta ter a alma de um navegador, não basta ter a bravura de um cruzado. Todos os dias enfrentamos novos desafios, novas oportunidades aparecem, mas tudo na vida tem um fim. Resta-nos batalhar como fizeram os nossos antepassados e crer. Talvez um dia, numa manhã de nevoeiro cerrado, volte o tal, aquele que está além da Vida e da Morte e venha ‘ressuscitar’ Portugal.

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