No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu ignorava a impermanência da vida, a transitoriedade das coisas, a efemeridade do ser.
Não existia lugar para um sorriso frio carente de parceiro, para um lágrima sedenta de experimentar a força da gravidade, para uma brincadeira consumida pela fadiga.
Sorria com a pureza do primeiro beijo, chorava com a inocência da primeira palavra, brincava com a vivacidade do primeiro choro.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu estava em tréguas com a morte. Todas as personagens do livro da minha vida continuavam a traçar a sua história, a colorir o cenário, abraçados por esse exímio cronologista, o tempo.
Quando preparava para festejar o dia dos meus anos, a morte saiu da penumbra e fez a sua primeira vítima, o patriarca da família.
- Sim, chorei (ainda choro)
- Sim, sofri (ainda sofro)
- Não, jamais esquecerei.
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos ganhou um significado nostálgico, substituindo a felicidade primitiva.
Despertou em mim o respeito pela morte, a imponência do intragável tempo.
A existência flui, flui como um sopro em constante mutação, nada jamais volta a ser o mesmo, nem mesmo o tempo em que festejavam o dia dos meus anos.
